Retrato de Ryo Sawayama, crítico de arte japonês.

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A Guilda de Conceitos

O crítico de arte japonês Ryo Sawayama, que palestrou sobre a importância dos objetos cotidianos no trabalho da artista Yuko Mohri, fala sobre as diversas teorias do autor Sōetsu Yanagi - inclusive sobre o conceito 'Yō no bi'

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A Guilda de Conceitos1

por Ryo Sawayama

Em 1928, Sōetsu Yanagi publicou o livro Kōgei no Michi (O Caminho da Arte Popular Japonesa), no qual organizou as suas teorias sobre o tema. Apresentado como um texto teórico a respeito dessa arte, Yanagi o escreveu com o intuito de registrar, de forma ordenada e lógica, os pensamentos que havia estabelecido sobre ela. No livro, o autor utiliza o termo Ketsugō (combinação, junção) em numerosas ocasiões. Yanagi afirmou que a arte popular japonesa (doravante Kōgei) nasce da prática continuada e de incontáveis repetições dos mesmos atos e processos produtivos pelas mãos de artesãos anônimos, e aplicou, de certa forma, o mesmo conceito no âmbito textual, pela repetição incessante da palavra Ketsugō. Foi uma estratégia do autor para atribuir uma lógica uniforme ao livro, uma coerência com aquilo que declarava.

As palavras e conceitos que Yanagi utilizou para descrever o Kōgei são bem conhecidos: (utilidade), Mushin (espírito vazio, isto é, desprovido de interferências), Getemono (peças de qualidade inferior), Fukanzen (imperfeito), Bonpu (a noção budista de pessoa comum, ordinária) e Tanjunsa (simplório). Essas palavras não são, autonomamente, conceitos de Kōgei. Isso porque é só pelo conceito de Ketsugō – que pode significar combinação, junção, como vimos – que todas essas palavras passam a se conectar ao conceito de Bi (Beleza).

Tomemos, como exemplo, a expressão “Yō no bi”, que pode ser traduzida literalmente como “a beleza na utilidade”, expressão considerada proveniente dos textos de Yanagi. No entanto, a descrição correta desse conceito é a junção (Ketsugō) entre “o Útil e o Belo”, pois está evidente que não há entre as duas palavras a preposição de subordinação “no”, mas sim a conjunção aditiva “e”:

Busco explicar que é nos diversos utensílios em que o útil e o belo se combinam de forma mais intensa que está presente a expressão mais íntegra da Beleza do Kōgei. [...] A Beleza do Kōgei é inviável sem a sua comunhão com a Utilidade. Se há de haver aqui a instauração da Beleza, são os objetos e bens que todos utilizamos a cada dia, os utensílios comuns que são necessários para a vida cotidiana, os bens baratos que são produzidos em profusão, as tantas peças que qualquer um pode comprar, as posses mais ordinárias possíveis, são eles que estão destinados a se combinarem com a Beleza da forma mais profunda. (em Kōgei no Michi, grifos nossos)

Relembre a JHSP Live // Yō no bi - a beleza nos objetos do cotidiano:

 

Com o devido perdão pelo uso desta expressão, Yanagi era uma espécie de “confrontador por ofício”. Tradicionalmente, tais conceitos eram reprimidos e excluídos do âmbito da Beleza. A estratégia do seu texto visava ressuscitar a junção entre essas noções afastadas e a Beleza pelo uso do conceito de Ketsugō, a fim de fazê-las recuperarem o seu valor. Mais do que isso, o Kōgei foi um receptáculo para uni-las à noção de Beleza, ressuscitando-as tal qual Cristo. Justamente por serem as noções mais afastadas da Beleza, elas se conectam da forma mais poderosa com a própria Beleza. O texto de Yanagi tem o propósito de promover, a partir do encontro entre a Beleza e esses conceitos afastados, um trabalho cooperativo entre eles, graças ao movimento propiciado pelo Ketsugō. Foi um movimento de resistência em prol desses conceitos, ou seja, Yanagi procurou outorgar a ideologia da resistência a conceitos abstratos.

A importância dessa ideia de Yanagi está no fato de que nenhum desses conceitos almeja a Beleza por si mesmo. O Kōgei é formado por objetos ordinários, sem graça, baratos, entre outros, que não foram produzidos com o intuito de serem belos. Paradoxalmente, é por isso mesmo que se conectam ao belo. Esse é o Paradoxo da Beleza presente no Movimento Mingei2. A Beleza, como definição positivada e meta a ser alcançada, é inerentemente inatingível. O texto de Yanagi reitera de forma obsessiva um número incalculável de conceitos de Beleza – justamente porque trata-se de uma noção que jamais poderá ser definida nem capturada com precisão.

A propósito, o engajamento estratégico da retórica do Ketsugō no texto de Yanagi não se limita apenas a essa abordagem, uma vez que, posteriormente, ele passa também a utilizar o mesmo conceito com o significado de “coletivo” similar às Guildas, ou de “colaborar” e “cooperar”. Ou seja, como substantivo ou até mesmo como verbo. Nesse estágio, o Ketsugō deixa de ser mero mediador de conceitos: a palavra passa a se comportar como se, subitamente, começasse a adquirir consciência independente. A partir desse momento, Ketsugō desce de nível hierárquico e coloca-se no mesmo status dos diversos conceitos que definem o Mingei (utilidade, simplicidade, Mushin – que significa desprovido de interferências, como vimos – etc.). A associação de ideias nos remete à imagem de um general que estava na posição de comandante, de emitir ordens, e que, de repente, passa a ser visto na frente de combate. A palavra Ketsugō de Yanagi recebe um duplo sentido e funções distintas. A teoria do Kōgei está em um movimento oscilante entre esses dois âmbitos do conceito Ketsugō.

Dessa forma, o Movimento Mingei enfatiza o Ketsugō entre artesãos e o povo, isto é, a convergência e a união entre esses agentes. Todavia, no texto de Yanagi já havia surgido a ideia de Ketsugō como a junção dos conceitos personificados de Utilidade e Beleza. Antes de destacar a convergência dos artesãos e do povo, o Movimento Mingei, primordialmente, enfatiza a convergência entre as personificações desses conceitos. O que se gera nesse contexto não ocorre no nível do povo, humano, mas sim no plano da coalizão e da coletivização de conceitos no âmbito das palavras. O movimento Mingei é um movimento textual.

Portanto, o Movimento Mingei, acima de tudo, existe como acontecimento retórico engendrado dentro dos textos de Sōetsu Yanagi. Com a intenção de movimentar, reunir, alinhar e coletivizar conceitos, invertendo, revertendo e subvertendo a posição relativa que tinham originariamente. Nele, os próprios conceitos se solidarizam democraticamente, constituindo, então, uma coletividade: uma Guilda de Conceitos. A Teoria Kōgei passa a ser tracionada por estruturas produtivas norteadas por essa noção de Guilda de Conceitos.

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1Guilda: nome dado a associações que na Idade Média congregavam indivíduos com interesses comuns (negociantes, artesãos e artistas) com o propósito de oferecer assistência e proteção aos seus membros. (N.T.)
2Mingei (民藝) é um termo que significa “arte popular”. (N.T.)

 

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